a fidelidade que permanece aos pés da Cruz
Publicado em 12/09/2026
A memória de Nossa Senhora das Dores, celebrada pela Igreja em 15 de setembro, nos conduz ao coração de um dos mistérios mais profundos da fé cristã: a participação de Maria no sofrimento de seu Filho e sua perseverança diante do Calvário. Contemplar Nossa Senhora das Dores não significa simplesmente recordar a dor de uma mãe que viu seu filho morrer. Significa contemplar uma mulher cuja vida inteira foi marcada por um “sim” radical a Deus, um Fiat que não se limitou aos momentos de alegria, mas alcançou também o lugar mais doloroso da missão de Cristo.
Desde a Anunciação, Maria havia colocado toda a sua existência à disposição da vontade divina. Ao responder ao anjo: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38), ela não conhecia todos os caminhos pelos quais aquele consentimento a conduziria. Seu sim não vinha acompanhado de garantias humanas. Maria simplesmente confiou. Por isso, quando Simeão profetiza que uma espada transpassaria sua alma, revela-se antecipadamente que sua maternidade estaria profundamente unida ao mistério da Cruz.
A espada anunciada por Simeão encontra sua expressão mais dolorosa no Calvário. Maria contempla seu Filho sendo rejeitado, humilhado, flagelado e crucificado. Aquele que ela carregou em seus braços agora está suspenso numa Cruz. Aquele que ela viu crescer em Nazaré é apresentado diante de seus olhos como um condenado. E, diante de uma dor que nenhuma mãe desejaria experimentar, Maria permanece.
Essa permanência é uma das imagens mais fortes da espiritualidade mariana. Maria não consegue retirar Jesus da Cruz, não consegue interromper seu sofrimento e não recebe naquele momento uma explicação para aquilo que está acontecendo. Entretanto, ela permanece ao lado dele. Sua presença silenciosa manifesta uma fé que não depende da compreensão imediata dos acontecimentos. Maria não entende plenamente o mistério, mas conhece aquele em quem colocou sua confiança.
É justamente por isso que Nossa Senhora das Dores se torna uma escola de fé. Existem momentos em nossa vida em que também não compreendemos aquilo que Deus permite. Há situações diante das quais nossas perguntas permanecem sem resposta, sofrimentos que não conseguimos evitar e acontecimentos que parecem contradizer tudo aquilo que esperávamos de Deus. Nesses momentos, Maria nos ensina que a fé não consiste em possuir respostas para todas as coisas, mas em permanecer junto de Deus mesmo quando não conseguimos compreender seus caminhos.
O Calvário revela também que o verdadeiro amor não abandona quando chega a hora da dor. Maria poderia ter desejado fugir daquela cena, mas escolheu permanecer. Seu amor materno não desapareceu diante do sofrimento; pelo contrário, tornou-se ainda mais profundo. Aos pés da Cruz, seu Fiat de Nazaré alcança uma nova dimensão. O “faça-se” pronunciado na Anunciação continua sendo vivido quando a realidade se torna incompreensível.
Por isso, olhar para Nossa Senhora das Dores é também olhar para o valor da fidelidade. Vivemos em uma sociedade que frequentemente deseja resultados imediatos, respostas rápidas e soluções para todo sofrimento. A experiência de Maria nos apresenta uma lógica diferente. Há momentos em que a única coisa possível é permanecer. Permanecer na oração, permanecer na esperança, permanecer junto de Cristo e não permitir que a dor nos faça abandonar aquilo que Deus começou em nós.
Maria não procurou a Cruz, mas quando a Cruz se apresentou, não fugiu dela. Essa distinção é fundamental. O cristianismo não glorifica o sofrimento por si mesmo. A Cruz recebe seu sentido porque nela Cristo manifesta o amor que se entrega até o fim. E Maria, permanecendo junto ao Filho, participa desse mistério de maneira singular. Sua dor não é uma dor sem sentido, mas uma dor oferecida, vivida na fé e unida ao sacrifício redentor de Cristo.
Existe ainda uma profunda esperança escondida nessa memória. O Calvário não foi o último capítulo da história de Jesus. A morte não teve a palavra final. A Cruz conduziu à Ressurreição. Da mesma forma, a devoção a Nossa Senhora das Dores não deve nos conduzir a uma espiritualidade marcada pelo desespero, mas a uma esperança madura, capaz de atravessar a noite sem deixar de acreditar na luz.
Nossa Senhora das Dores nos recorda, portanto, que a fidelidade a Deus não se mede somente pelos momentos em que tudo está bem. O verdadeiro abandono se revela quando continuamos confiando mesmo quando o caminho passa pela Cruz. Maria permaneceu de pé porque seu coração já pertencia inteiramente a Deus. Sua força não estava na ausência de sofrimento, mas na profundidade de sua confiança.
Celebrar Nossa Senhora das Dores é, então, permitir que ela nos ensine novamente a viver o nosso próprio Fiat. É aprender que nem sempre teremos respostas, mas sempre poderemos oferecer nossa confiança. Nem sempre poderemos mudar aquilo que nos acontece, mas poderemos escolher como permanecer diante disso. Nem sempre conseguiremos compreender o silêncio de Deus, mas poderemos continuar acreditando que Ele permanece presente.
Aos pés da Cruz, Maria nos ensina que permanecer também é uma forma de amor. E talvez esta seja uma das maiores lições de sua vida: quando tudo parece perdido, quando as respostas desaparecem e quando a dor parece falar mais alto que a esperança, ainda existe uma decisão que podemos tomar.
Não ir embora. Permanecer com Cristo.
Porque a Mãe permaneceu no Calvário, e depois do Calvário veio a Ressurreição.