Maria, a mulher que já contempla a glória para a qual fomos criados
Publicado em 13/08/2026
A Igreja celebra com grande alegria a Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria, uma das mais importantes celebrações marianas do calendário litúrgico. Nela, contemplamos um dos grandes mistérios da fé católica: ao término de sua vida terrena, Maria foi elevada por Deus à glória do céu, em corpo e alma.
No Brasil, embora a solenidade tenha como data própria o dia 15 de agosto, sua celebração é transferida para o domingo seguinte, favorecendo uma maior participação dos fiéis e permitindo que essa importante solenidade mariana seja celebrada com maior solenidade pelas comunidades. A própria CNBB explica que essa transferência tem justamente o objetivo de possibilitar que um número maior de cristãos participe das celebrações.
Mas o que significa, afinal, dizer que Maria foi assunta ao céu?
A Assunção não significa simplesmente que Maria foi levada para um lugar distante. O mistério aponta para algo muito maior: Maria já participa plenamente da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte.
Maria é aquela que esteve intimamente unida ao mistério da vida de Jesus. Desde a Anunciação, quando respondeu ao chamado de Deus com seu generoso “sim”, até a Cruz, onde permaneceu de pé junto ao Filho, sua existência foi marcada pela fé, pela entrega e pela comunhão com o projeto de salvação.
Por isso, sua Assunção está profundamente ligada ao próprio mistério de Cristo.
Jesus ressuscitou e venceu a morte. Maria, por graça singular de Deus, participa de modo antecipado da glorificação que todos os fiéis esperam alcançar no fim dos tempos.
A Igreja ensina que Maria foi elevada ao céu não apenas em sua alma, mas em corpo e alma. Essa verdade foi proclamada como dogma pelo Papa Pio XII, em 1º de novembro de 1950, por meio da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus. A definição dogmática afirma que a Imaculada Mãe de Deus, ao terminar o curso de sua vida terrena, foi assumida em corpo e alma à glória celeste.
Essa afirmação possui uma profunda consequência para a nossa fé.
Deus não salva apenas uma parte de nós.
O corpo também pertence ao projeto de Deus.
A nossa existência humana, marcada por limitações, dores, fragilidades e pela própria realidade da morte, está destinada à ressurreição. Em Maria, contemplamos antecipadamente aquilo que a Igreja espera para todos aqueles que permanecem unidos a Cristo.
Por isso, a Assunção de Nossa Senhora não é apenas uma celebração sobre Maria. É também uma celebração sobre o nosso próprio destino.
Maria nos mostra para onde Deus deseja conduzir aqueles que permanecem fiéis.
A liturgia da solenidade apresenta, de maneira particularmente bela, a visita de Maria à sua prima Isabel. Depois de receber o anúncio do anjo, Maria não permanece fechada em si mesma. Ela parte apressadamente para servir. E, ao encontrar Isabel, proclama o Magnificat: “Minha alma engrandece o Senhor”.
É significativo que a mulher que será contemplada na glória do céu seja a mesma que encontramos caminhando pelas estradas, entrando na casa de Isabel e colocando-se a serviço.
Maria não chegou à glória pelo caminho da exaltação pessoal.
Chegou pela humildade.
Não buscou ocupar o primeiro lugar.
Escolheu servir.
Não procurou fazer de si mesma o centro.
Permitiu que Deus fosse o centro de sua existência.
E é justamente essa lógica que a Assunção revela.
No Evangelho, Maria proclama: “O Senhor fez em mim maravilhas.”
Ela reconhece que tudo é graça. A glória de Maria não é fruto de uma conquista independente de Deus, mas da ação divina realizada naquela que se abriu inteiramente à sua vontade.
Por isso, contemplar Maria Assunta ao céu é contemplar a força de um “sim” levado até o fim.
O mesmo “sim” pronunciado na Anunciação encontra sua plenitude na glória.
A mesma mulher que um dia se colocou como “serva do Senhor” agora aparece como Rainha junto ao Filho.
A humildade foi elevada.
A fidelidade foi glorificada.
Aquele coração que pertenceu inteiramente a Deus participa agora da glória de Deus.
A Assunção também é uma solenidade de esperança. Em um mundo marcado por tantas incertezas, sofrimentos, perdas e medos, Maria aparece como um sinal de que a morte não possui a última palavra.
Em Cristo, a vida venceu.
E Maria, elevada em corpo e alma ao céu, é o primeiro grande sinal daquilo que Deus prepara para aqueles que permanecem fiéis.
A Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, apresenta Maria Assunta como sinal de esperança e conforto para o povo de Deus que ainda caminha neste mundo.
Essa imagem é profundamente consoladora.
Enquanto caminhamos, Maria já contempla aquilo que esperamos.
Enquanto enfrentamos as lutas desta vida, ela já participa da glória do Filho.
Enquanto ainda experimentamos a fragilidade do corpo e as limitações da existência, ela nos recorda que Deus não abandona a obra que começou em nós.
Por isso, celebrar a Assunção é renovar a esperança.
É recordar que nossa vida não termina no sofrimento.
Que nossas lágrimas não são inúteis.
Que nossas lutas não são esquecidas.
Que a fidelidade a Deus tem um destino.
O céu não é uma ideia distante. É a promessa para a qual fomos criados.
E Maria, Assunta ao céu, permanece como aquela que nos aponta o caminho.
Ela não substitui Cristo.
Ao contrário, tudo em Maria conduz a Cristo.
Sua grandeza está justamente em ter sido aquela que recebeu Jesus, gerou Jesus, apresentou Jesus ao mundo e permaneceu fiel a Ele até a Cruz. Por isso, contemplar Maria é sempre aprender a olhar para o Filho.
A Assunção nos convida, portanto, a olhar para o céu sem abandonar a terra. Maria não nos ensina a fugir das responsabilidades deste mundo, mas a vivê-las com os olhos voltados para Deus.
Como ela, somos chamados a servir.
Como ela, somos chamados a confiar.
Como ela, somos chamados a permanecer firmes nas dificuldades.
Como ela, somos chamados a dizer diariamente nosso “sim” ao Senhor.
E, sobretudo, somos chamados a acreditar que a fidelidade vale a pena.
Maria Assunta ao céu é a Mulher que já chegou onde nós ainda estamos a caminho. Por isso, sua glória não nos distancia dela. Pelo contrário, faz dela ainda mais próxima, como Mãe que acompanha seus filhos e os conduz para o encontro definitivo com Cristo.
Neste domingo em que, no Brasil, celebramos solenemente a Assunção de Nossa Senhora, somos convidados a contemplar aquela que a Igreja reconhece como Mãe, Rainha e sinal de esperança.
Que Maria nos ensine a viver com os pés firmes na realidade e o coração voltado para o céu.
Que nos ensine a servir sem buscar reconhecimento, a confiar sem exigir respostas imediatas e a permanecer fiéis mesmo quando o caminho se tornar difícil.
E que, ao contemplarmos sua glória, possamos também renovar em nós a certeza de que o céu é o destino daqueles que, unidos a Cristo, perseveram na fé e no amor.
Nossa Senhora da Assunção, rogai por nós e conduzi-nos sempre para o vosso Filho.